segunda-feira, 29 de setembro de 2014

O amor é o amor



O amor é o amor - e depois?!
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?..

O meu peito contra o teu peito,
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar!

Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor,
e trocamos - somos um? somos dois? -
espírito e calor!
O amor é o amor - e depois?!


Alexandre O'Neil


quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Uma nova noite



A noite sempre foi para mim um espaço de isolamento. Ao mesmo tempo que me apresentava o conforto de poder ser verdadeiramente eu, também me mostrava que esse eu estava votado à solidão. Mesmo que acompanhada, nunca consegui que alguém compreendesse o que esse espaço significava para mim.
A escuridão atrai-me. A melancolia também. Do mesmo modo, sinto-me atraída pela voluptuosidade das horas nocturnas, pela capacidade de entrega que elas me trazem, pela liberdade que me dão... Nunca ninguém me compreendeu. Nunca ninguém sentiu isto da mesma maneira que eu.
Mas agora uma nova noite abre-se para mim. Vou sair da prisão em que me encarcerei e acolhê-la de braços abertos. Talvez não tenha que procurar mais. Talvez seja uma noite definitiva, cheia de estrelas, como a de Van Gogh.




*Pintura: A noite estrelada, Vincent Van Gogh

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Para atravessar contigo o deserto do mundo



Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

Sophia de Mello Breyner Andresen
Livro Sexto (1962)

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Pureza

"Todo este tempo continuei a amar Dora, e com intensidade crescente. Pensar nela constituía o meu refúgio no meio das desilusões e tristezas, o que de certa maneira me compensou da perda do amigo. Quanto mais me lastimava, a mim ou aos outros, mais achava consolo na recordação de Dora. Quanto maior fosse a porção de mentiras e sofrimentos deste mundo, maior brilho tomava no zénite a estrela pura que se chamava Dora. Não me parece que tivesse uma ideia muito certa da natureza de Dora nem do seu parentesco com os entes siderais; mas estou convencido de que repudiaria indignado a hipótese de ela ser apenas uma criatura humana, como qualquer outra rapariga do nosso mundo.
Estava, se assim me posso exprimir, todo impregnado de Dora. Do oceano do meu amor podia tirar a água necessária para afogar quem quisesse: ainda ficaria bastante para o resto da minha vida."

David Copperfield, Charles Dickens

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Nas grandes horas em que a insónia avulta 
Como um novo universo doloroso, 
E a mente é clara com um ser que insulta 
O uso confuso com que o dia é ocioso, 

Cismo, embebido em sombras de repouso 
Onde habitam fantasmas e a alma é oculta, 
Em quanto errei e quanto ou dor ou gozo 
Me farão nada, como frase estulta. 

Cismo, cheio de nada, e a noite é tudo. 
Meu coração, que fala estando mudo, 
Repete seu monótono torpor 

Na sombra, no delírio da clareza, 
E não há Deus, nem ser, nem Natureza 
E a própria mágoa melhor fora dor. 

Fernando Pessoa

quarta-feira, 30 de abril de 2014

David Copperfield

"Não me importava de partir. Encontrava-me em tal estado de embrutecimento que o meu desejo era reencontrar Steerforth, se bem que por trás dele aparecesse a sombra de Creakle. Mais uma vez apareceu ao portão o carroceiro Barkis e mais uma vez a senhora Murdstone avisou a minha mãe com um «Clara!» enérgico quando ela se inclinou para me dar o beijo de despedida.
Beijei-a também, assim como ao meu irmãozinho, e então senti-me triste, não, porém, de me ir embora, pois entre nós cavara-se um abismo e a separação já existia. O seu adeus, embora caloroso, não está tão presente na minha memória como o que se seguiu.
Achava-me na carroça quando a ouvi pronunciar o meu nome. Voltei-me e vi-a à porta, com o pequenito nos braços, erguendo-o para que eu o contemplasse. O tempo ainda se mantinha frio, mas sem vento. Nem um cabelo, nem uma dobra do seu vestido se moveu enquanto ela ali ficou olhando-me intensamente e segurando sempre a criança à altura da cabeça.
Foi assim que a perdi. Foi assim que a evoquei mais tarde, no Internato - uma presença silenciosa junto da minha cama - ; olhando-me com o mesmo olhar fixo e o bebé erguido nos braços."

Charles Dickens, David Copperfield

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Um poema por dia...nº27

Soneto do amor e da mortequando eu morrer murmura esta canção 
que escrevo para ti. quando eu morrer 
fica junto de mim, não queiras ver 
as aves pardas do anoitecer 
a revoar na minha solidão. 

quando eu morrer segura a minha mão, 
põe os olhos nos meus se puder ser, 
se inda neles a luz esmorecer, 
e diz do nosso amor como se não 

tivesse de acabar, sempre a doer, 
sempre a doer de tanta perfeição 
que ao deixar de bater-me o coração 
fique por nós o teu inda a bater, 
quando eu morrer segura a minha mão. 

Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"