"Mas não foi possível: duas horas depois morria. Avisados por Cipriano da proximidade do fim, (Guida pedira-lhe ardentemente que a avisasse) Rebelo e a mulher transportaram o filho para casa: Guida queria estar ainda (ainda!) a sós com ele, no pequeno ambiente da sua esperança, do seu pequeno sonho para ninguém. Mas a surpresa, o absurdo de tudo, impediam-na de saber enfim que o filho morrera: como é possível? Sim, os olhos, os ouvidos, as mãos, só davam pobres verdades indiferentes: o que era para a vida profunda não se conhecia aí. Quanto tempo ainda para saber que o filho morrera realmente? Chorava ainda. E era como se se purificasse para atingir o limiar desse mundo fechado da amargura, mundo perfeito, uno, - mundo fértil, talvez, como o da alegria e da esperança.
Pôs-se o caixão no quarto do filho, que Guida não consentiu fosse desarrumado. Em volta, numa prateleira, os seus brinquedos: dois automóveis, uma esquadrilha de aviões de plástico, o «jeep maluco», o ursinho branco que Paula lhe dera, - vozes de infância, vozes sem tempo, o absoluto da promessa. Como era incrível que o pequeno cadáver na urna branca não dialogasse ainda com os soldados de chumbo, com o seu cavalo de pau, não dialogasse sobretudo com a manhã feliz que renascia pela cidade, abria pelo céu novo a esperança de sempre."
"Cântico Final", Vergílio Ferreira
domingo, 6 de abril de 2014
Um poema (?) por dia...nº16
"- Bom. Há duas normas de vida e mais nenhuma. Não bem normas, não há «normas» de nada. Enfim, há dois modos de viver: ou se mete a vida na morte ou se mete a morte na vida.
parou, afagando a pera, fitou Mário de través, como se suspeitasse uma acusação:
- Claro que eu meto a morte na vida. Que há mais do que a vida? Mais nada, mais nada. A morte não existe.
Voltou a meditar, alheado:
- Sim, sim. Oh, a Dina, a minha pobre mulher, se a lembro. Lembro-a eu, lembram-na os gatos, a Vitorina, a cadeira de braços... Mas ela não lembra nada, e é isso que importa. To die, to sleep, no more. Eis que a manhã vem aí e o sol e a vida, e a terra se vai cumprir sem embaraços. Sim, sim, não adianta falar. A vida não se aprende, não se ensina...
- Nem a morte..."
Cântico Final, Vergilio Ferreira
parou, afagando a pera, fitou Mário de través, como se suspeitasse uma acusação:
- Claro que eu meto a morte na vida. Que há mais do que a vida? Mais nada, mais nada. A morte não existe.
Voltou a meditar, alheado:
- Sim, sim. Oh, a Dina, a minha pobre mulher, se a lembro. Lembro-a eu, lembram-na os gatos, a Vitorina, a cadeira de braços... Mas ela não lembra nada, e é isso que importa. To die, to sleep, no more. Eis que a manhã vem aí e o sol e a vida, e a terra se vai cumprir sem embaraços. Sim, sim, não adianta falar. A vida não se aprende, não se ensina...
- Nem a morte..."
Cântico Final, Vergilio Ferreira
sexta-feira, 4 de abril de 2014
Um poema por dia...nº15
| Meio da vida |
| Com peras amarelas E repleta de rosas silvestres A terra estende-se por cima do lago, Vós graciosos cisnes! E embriagados de beijos Molhais a cabeça Na sagrada e sóbria água. Pobre de mim ! onde irei buscar Quando for Inverno, as flores e Onde o brilho do Sol E as sombras da terra ? Frios e mudos, os muros erguem-se; ao vento, as bandeiras tilintam. Höderlin |
quinta-feira, 3 de abril de 2014
Um poema por dia...nº14
| Nom me posso pagar tanto do canto | |||
| das aves nem de seu som | |||
| nem d'amor nem de missom | |||
| 5 | nem d'armas - ca hei espanto | ||
| por quanto | |||
| mui perigosas som | |||
| - come d'um bom galeom | |||
| que mi alongue muit'aginha | |||
| 10 | deste demo da campinha, | ||
| u os alacrães som; | |||
| ca dentro, no coraçom, | |||
| senti deles a espinha. | |||
| E juro par Deus lo santo | |||
| 15 | que manto | ||
| não tragerei, nem granhom, | |||
| nem terrei d'amor razom, | |||
| nem d'armas, porque quebranto | |||
| e chanto | |||
| 20 | vem delas tod'a sazom; | ||
| mais tragerei um dornom, | |||
| e irei pela marinha | |||
| vendend'azeite e farinha, | |||
| e fugirei do poçom | |||
| 25 | do alacrã, ca eu nom | ||
| lhi sei outra meezinha. | |||
| Nem de lançar a tavolado | |||
| pagado | |||
| nom sõo, se Deus m'ampar, | |||
| 30 | adés, nem de bafordar; | ||
| e andar de noute armado, | |||
| sem grado | |||
| o faço, e a roldar; | |||
| ca mais me pago do mar | |||
| 35 | que de seer cavaleiro; | ||
| ca eu foi já marinheiro | |||
| e quero-m'oimais guardar | |||
| do alacrã, e tornar | |||
| ao que me foi primeiro. | |||
| 40 | E direi-vos um recado: | ||
| pecado | |||
| nunca me pod'enganar | |||
| que me faça já falar | |||
| em armas, ca nom m'é dado | |||
| 45 | - doado | ||
| m'é de as eu razõar, | |||
| poilas nom hei a provar; | |||
| ante quer'andar sinlheiro | |||
| e ir come mercadeiro | |||
| 50 | algũa terra buscar | ||
| u me nom possam culpar | |||
| alacrã negro nem veiro. Afonso X |
quarta-feira, 2 de abril de 2014
Um poema por dia...nº 13
Parte: como se tivesses de ser esquecida,
deixando atrás uma imagem de sombra. Não
leves contigo as palavras que trocámos,
como cartas, num instante de despedida; mas
não te esqueças da luz da tarde que os teus
olhos abrigaram. Por vezes, lembrar-me-ei
de ti. É como se, ao voltar-me, ainda me
esperasses, sem um sorriso, para me dizeres
que o tempo tudo resolve. Não te ouço; e,
ao aproximar-me dos teus braços, vejo-te
desaparecer. Mais tarde, penso, isto fará
parte de um poema; mas tu insistes. O amor
chama-nos, de dentro da vida; obriga-nos a
renunciar à imobilidade da alma, a sacrificar o corpo a um desejo de memória.
deixando atrás uma imagem de sombra. Não
leves contigo as palavras que trocámos,
como cartas, num instante de despedida; mas
não te esqueças da luz da tarde que os teus
olhos abrigaram. Por vezes, lembrar-me-ei
de ti. É como se, ao voltar-me, ainda me
esperasses, sem um sorriso, para me dizeres
que o tempo tudo resolve. Não te ouço; e,
ao aproximar-me dos teus braços, vejo-te
desaparecer. Mais tarde, penso, isto fará
parte de um poema; mas tu insistes. O amor
chama-nos, de dentro da vida; obriga-nos a
renunciar à imobilidade da alma, a sacrificar o corpo a um desejo de memória.
Nuno Júdice
terça-feira, 1 de abril de 2014
Um poema (?) por dia... nº 12
Doem-me a cabeça e o universo. As dores físicas mais nitidamente dores que as morais, desenvolvem, por um reflexo no espírito, tragédias incontidas nelas. Trazem uma impaciência de tudo que, como é de tudo, não exclui nenhuma das estrelas.
Não comungo, não comunguei nunca, não poderei, suponho, alguma vez comungar aquele conceito bastardo pelo qual somos, como almas, consequências de uma coisa material chamada cérebro, que existe, por nascença, dentro de outra coisa material chamada crânio. Não posso ser materialista, que é o que, creio, se chama àquele conceito, porque não posso estabelecer uma relação nítida - uma relação visual, direi - entre uma massa visível de matéria cinzenta, ou de outra cor qualquer, e esta coisa eu que por detrás do meu olhar vê os céus e os pensa, e imagina céus que não existem. Mas, ainda que nunca possa cair no abismo de supor que uma coisa possa ser outra só porque estão no mesmo lugar, como a parede e a minha sombra nela, ou que depender a alma do cérebro seja mais que depender eu, para o meu trajecto, do veículo em que vou, creio, todavia, que há entre o que em nós é só espírito e o que em nós é espírito do corpo uma relação de convívio em que podem surgir discussões. E a que surge vulgarmente é a de a pessoa mais ordinária incomodar a que o é menos.
Dói-me a cabeça hoje, e é talvez do estômago que me dói. Mas a dor, uma vez sugerida do estômago à cabeça, vai interromper as meditações que tenho por detrás de ter cérebro. Quem me tapa os olhos não me cega, porém impede-me de ver. E assim agora, porque me dói a cabeça, acho sem valia nem nobreza o espectáculo, neste momento monótono e absurdo, do que aí fora mal quero ver como mundo. Dói-me a cabeça, e isto quer dizer que tenho consciência de uma ofensa que a matéria me faz, e que, porque como todas as ofensas, me indigna, me predispõe para estar mal com toda a gente, incluindo a que está próxima porém me não ofendeu.
O meu desejo é de morrer, pelo menos temporariamente, mas isto, como disse, só porque me dói a cabeça. E neste momento, de repente, lembra-me com que melhor nobreza um dos grandes prosadores diria isto. Desenrolaria, período a período, a mágoa anónima do mundo; aos seus olhos imaginadores de parágrafos surgiriam, diversos, os dramas humanos que há na terra, e através do latejar das fontes febris erguer-se-ia no papel toda uma metafísica da desgraça. Eu, porém, não tenho nobreza estilística. Dói-me a cabeça porque me dói a cabeça. Dói-me o universo porque a cabeça me dói. Mas o universo que realmente me dói não é o verdadeiro, o que existe porque não sabe que existo, mas aquele, meu de mim, que, se eu passar as mãos pelos cabelos, me faz parecer sentir que eles sofrem todos só para me fazerem sofrer.
Bernardo Soares
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